Edição especial  do Jornal Capital em Foco

 

Norma Lillia X Brasília

 

Por Karla Lopes

Norma Lillia Biavaty – goiana, bailarina desde os 4 anos é tema de nossa Edição Especial pelos 60 anos de Brasília.  Norma Lillia Biavaty é bailarina, professora, empreendedora, mulher e mãe. Ministra aulas, workshops, palestras... Faz e acontece, e é a real diferença social por onde quer que passe. Sua trajetória pessoal e profissional se mistura com a de Brasília, que ela trata carinhosamente como Menina-Capital.

 

 

Figura presente e importante no desenvolvimento da cultura da cidade, Norma foi desde cedo, bailarina com alma de pássaro. Voou o mundo, se mantendo fiel ao que acreditava e colheu pelo caminho todos os ensinamentos possíveis, e nos presenteou com a arte do balé em suas variações mais profundas. 

Conquistou o jornalista Assis Chateubriand, que encantado com o que a viu fazer, transferiu seu pai para o Rio de Janeiro, e assim, aos 6 anos, teve a oportunidade de cursar na escola de balé do Teatro Municipal. Quando seu pai foi transferido para a Capital, em 1962, Norma formou em uma sala no Colégio Nossa Senhora do Rosário, a primeira turma do balé Norma Lillia Biavaty, que originou o Grupo Brasiliense de Ballet, primeiro corpo de baile da nova capital.

Formada em pedagogia da dança fundou o Ballet Norma Lillia. Seus projetos atravessaram o conceito da dança clássica, abraçaram a arte contemporânea, acolheram o teatro, a música, criando espetáculos memoráveis. Como professora de balé, foi incansável. Criou o Método de Ensino Ballet Norma Lillia Biavaty, e conquistou o respeito das maiores academias de dança e colocou na estrada seus alunos, que hoje se apresentam nas melhores companhias de balé do mundo, entre elas, o Bolshoi. Com a Trupe 108, que foi a 1ª companhia de dança do DF a se apresentar em todo o Brasil, Europa e Estados Unidos, o Ballet de Norma Lillia apresentou "Isadora" em Moscou, após 2 anos do acontecimento em Chernobil por 3 dias. E isso é só um pedaço do que ela foi capaz de fazer ao longo de sua vitoriosa carreira.

Sua história quase virou livro. E merecia. Porque um livro seria pouco para narrar tamanha dedicação, leveza, entrega e paixão. Uma vida dedicada à arte. Comendadora da Ordem do Mérito de Brasília, Cidadã Honorária de Brasília, Homenageada Especial pelo conjunto da obra – do Prêmio OK de Cultura e Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural de Brasília, Norma é parte destes 60 anos. Para nós fica o exemplo, a força, a coragem e o ser feliz com sua trajetória. 

Este bate papo foi através de whatsapp, ela está morando em Porto Alegre. Ela foi expressamente cordial em nos ajudar a contar parte de sua história, misturada à história de Brasília, e principalmente nos ensinando o poder da transformação pela arte, pela dança e pela cultura. Resumir 70 anos de carreira foi o maior desafio, mas valeu cada linha. 

  • Capital em Foco – Quando volta no passado e lembra sua chegada à cidade, o quê primeiramente vem à sua mente? 

 

Norma Lillia - Quando eu cheguei em Brasília eu disse: Meu Deus! O que é isso? Era um prédio aqui, um prédio ali, e eu muito nova. Para mim não foi choque, exatamente assim: nossa! existem coisas diferentes do Rio de Janeiro. E fui me apaixonando rapidamente, porque eu me lembro que com 15 para 16 anos, comecei a ficar maravilhada, pelas construções que já estavam prontas. E naquela época tinha muito redemoinho, e eu via aquilo como se fosse uma coreografia, eu ficava toda vermelha, eu entrava nele, uma loucura, mas eu era muito jovem. E naquela época 15 anos eram 15 anos, não são os 15 anos de hoje em dia. Foi lindo, maravilhoso e foi assim apaixonante, foi uma coisa assim como que se eu tivesse... eu hoje em dia penso assim, como se eu estivesse retornando ao meu nascimento. Então foi um renascimento. Mas assim trazendo uma bagagem cultural imensa, entende? Até os 15 anos foi muito estudo, muitas línguas, muitos professores estrangeiros, muita orientação, muita dedicação. E tudo foi muito maravilhoso.

Esses redemoinhos que eu falei atrás, eles foram importantes, porque o redemoinho ele nunca ia ao mesmo lugar, é como se fossem vários bailarinos rodando. Então eu achava muito bonito, achava lindo, eu ficava toda suja, mas era lindo porque era muito seco. A gente passava muito creme, para poder sair. A gente saia limpinha voltava vermelhinha.

 

  •  Capital em Foco – O que o balé ensinou à Senhora nestes mais de 70 anos dedicados à arte?  

 

Norma Lillia – Me ensinou a ser eu. A disciplina, a observação, a educação, uma aprendizagem esmerada que todo mundo devia ter, a não ser pedante, porque todos dizem ah! bailarina quando ela é assim ou assado, ela tem o nariz empinado. Não é verdade. Não é o nariz empinado, é a nossa postura. É que essa nossa postura ela chama uma atenção. Quando você entra numa loja as pessoas te perguntam logo assim: a Senhora fez balé? (risos) Mesmo já com essa idade, eles perguntam. Nossa a Senhora tem uma postura tão linda! E nisso vai à educação total, completa. Educação que eu falo básica, de conhecimentos, educação do que é o seu corpo, de como você deve sentar, o que você não deve fazer, o que vai te fazer mal, o que você vai comer, o que você não deve comer, o que vai beber. Eu por exemplo, eu nunca pus uma gota de álcool, nunca bebi, nunca fumei. Então, mesmo convivendo com muitos fumantes, bailarinos fumavam demais, eu nunca tive isso. Mas eu acho que isso foi por uma maneira de ser, pela minha família, meus pais.

Basicamente, o balé é uma educação total, completa, que você sendo bailarina, ou não, e a maioria não é, leva para o resto da vida. É o cabelo limpo, é o cabelo arrumado, é aquela limpeza corporal, é aquela respiração, é a postura, é a alimentação. Então, é o que me fez sobreviver, quem sabe até hoje, o trabalhar muscular, o trabalho físico. Ter o pulmão limpo é claro, nós não estamos isentos de nada, mas eu acho que ele proporcionou uma vida saudável, até os dias de hoje. E o balé é aconselhável para todas as crianças. É um trabalho muscular muito intenso. Então, o balé trouxe para mim, eu acho que saúde, foi o que me fez viver bem até agora.

 

  • Capital em Foco – Em entrevista ao Correio Brasiliense em 13/05/2013, a Senhora comenta um episódio pessoal que quase lhe custou à vida. Isso refletiu no que acredita como ser humano? 

 

Norma Lillia – Eu sempre fui cheinha, mas magra. Eu tive um problema sério emocional, junto com a tireoide, que me fez engordar demais. Os médicos diziam: como você não come e você está tão gorda? Eu não sei! Eu continuo dançando, eu dançava do mesmo jeito, ajoelhava, pulava... e gorda. 

 

Os médicos aqui de Brasília me disseram: você vai fazer à bariátrica. Só que eu tive um problema de não cicatrização. Minha família simplesmente mudou pra Goiânia. Eu tive que fazer uma nova operação. Eu me lembro assim, de bolsas, várias bolsas, de cores diferentes, só. De minha mãe sentada na janelinha do hospital em Goiânia, sempre rezando. Uma sonda nasal provocou um problema sério: ela me deu uma desidratação fortíssima, e que fui obrigado a reinternar, eu fiquei mais um mês e meio porque eu quase morri. 

Eu fiz a operação no dia 13 de agosto e saí meados de outubro, praticamente a 15 dias do espetáculo da Academia. Eu melhorei. Eu emagreci tão rápido, é como se eu não tivesse gorda de gordura, e sim cheia de ar. Em 3 meses eu perdi 60 quilos. 

Ainda sentada comecei a ensaiar um espetáculo.

 

Como eu fiz isso? Eu não me lembro. O meu filho tem tudo isso registrado em fotos, mas ele nunca quis me mostrar, porque ele diz que foi muito sofrido.  Foi um episódio que eu não me lembro por incrível que pareça. Vai fazer, dia 13 de agosto, 20 anos que eu fiz essa operação, e eu sempre digo: Meu Deus tá passando o tempo. Eu já tive uma vida muito linda, com coisas maravilhosas, com algumas derrotas, sucessos, com fracassos, com alegria, com tristeza. A vida pessoal com casamento, com não casamento, com decepções, recuperações. Hoje em dia eu vivo com meu filho, por um problema familiar, mas eu agradeço tudo que eu tive até agora. Eu vou fazer em maio 75 anos, com outra vida, uma vida nova.

 

  • Capital em foco – A Senhora relata que nunca teve real interesse em ser bailarina...

 

Norma Lillia – Eu nunca tive realmente interesse em ser bailarina, e hoje eu tenho quase absoluta certeza de que eu me encantei de ver professores maravilhosos que mostravam como fazer a coisa, como aquilo deveria acontecer. Eu me interessava em fazer. Tive simples interesse a mais, porque bailarina é uma coisa, professora é outra totalmente diferente. Dá muito mais trabalho. Eu achava que não era uma boa bailarina. Eu dançava. Eu era uma boa criadora de coreografias. Eu nasci para coreografar, porque foi assim que os jornalistas me encontraram. Eu coreografando para mim. Depois eu fiz o balé, eu dancei, dancei no Teatro Municipal do Rio, o Quebra-Nozes, como espanhola, eu dancei em balés em Brasília... então eu dancei, mas aqui dentro dizia: professora, professora, professora... Então isso para mim me preencheu, porque é um trabalho sabe.

 

  • Capital em Foco – Como avalia a sua trajetória, vendo Brasília completar 60 anos e sua história se misturando com a da cidade? 

Norma Lillia - A minha trajetória em Brasília é a minha vida, é meu chão, é meu ar, eu sou apaixonada. Eu nunca, jamais gostaria de ter saído, e acho que vou voltar de uma maneira ou de outra, eu vou voltar. Posso dizer que eu tive Brasília dentro da minha Escola porque não tem uma pessoa que tenha, vamos supor 50, 60 anos que não tenha passado pela minha Escola. E todas as pessoas falam: Eu fui do Balé Norma Lillia. Eu tenho minhas Comendas, eu tenho reconhecimento cultural, todo mundo sabe quem eu sou. Montei uma Escola de balé à semelhança da minha que é um curso profissionalizante com diploma emitido pelo Ministério da Educação (está desativada agora, mas eu posso reativá-la). 4 anos de ensino. Eu fui colocar ela aonde? Portugal, no Porto. Queriam que eu ficasse no Porto. Eu digo: Olha, eu não posso abandonar Brasília, jamais sairei de Brasília. Eu vou colocar meu Coordenador, que é o Marcelo José. Mandei paro Porto (ele está lá há 32 anos). Não sou dessa de pensar no que fez, eu tinha que fazer, eu tinha que dar aula, eu tinha que ser daquela maneira. Para mim é uma coisa incorporada, não existe duas Normas Lillia, existe a Norma Lillia – bailarina e professora. Estou sempre em busca porque eu acho que faz parte de mim, da minha obrigação como mulher dentro desse planeta, dentro de Brasília, estudar cada vez mais, apresentar cada vez mais.     

 

                                                                                              

  • Capital em Foco – Quando falamos de arte como transformadora social, nos lembramos do aniversário de 50 anos da Unicef no Brasil, onde a senhora montou um espetáculo musical com crianças da Santa Maria. Pode nos contar como foi este momento em sua vida? 

Norma Lillia – Sobre a Unicef, eu acho que um dos maiores presentes que eu pude ter. Um reconhecimento inominável. Todos os acontecimentos das manifestações da Unicef são coisas muito de peso e ela me escolheu para trabalhar com crianças da periferia de Santa Maria. E crianças que nunca fizeram dança. De 2 mil crianças eu selecionei 250. Fiz o musical “Asas do Entorno”, com crianças andando de patins, tudo cantado, contando a história deles. Foi uma coisa de arrepiar. Repetimos a apresentação no ano seguinte. Foi um trabalho super difícil porque os pais não entendiam por que elas tinham que ir ensaiar, elas eram mais um trabalhador dentro de casa. Eu tive que conversar.

 

 

Em mim houve uma transformação antes de Santa Maria e depois de Santa Maria. Me transformei, eu mudei valores em mim, um presente do céu. Quando eu as tirei de Santa Maria e coloquei dentro da minha academia, que elas se viram no espelho, dançando, você não pode acreditar o quê foi de choro. Eu praticamente deixei um caminho aberto. Saíram grandes competidores de dança, de break. Imagina isso foi na Villa Lobos (Sala Vila Lobos – Teatro Nacional), grandes painéis em que eles grafitaram, surgiram patinadoras que foram fazer aula, competiam. Então deixou para elas uma esperança. Não sei o que aconteceu, mas abriu uma porta para eles.

 


E para mim, abriu assim: Norma é assim.  Assim que você é agora.agora. Trocam-se valores. O olhar sobre a população de Brasília, o olhar sobre a população do plano Piloto, da população das periferias, das cidades satélites. É um olhar muito especial.

Fonte: 

https://www.metropoles.com/colunas-blogs/claudia-meireles/eu-nunca-tive-interesse-em-ser-bailarina-diz-norma-lillia-biavaty - por Betânia Nunes em 28/05/2019

https://gpslifetime.com.br/conteudo/entretenimento/15/solo-sagrado-diz-norma-lillia-sobre-predio-na-108-sul por Marcella Oliveira 

hthttps://sosmaes.com.br/empresa/ballet-norma-lillia-biavaty/ 

tps://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/revista/2012/05/13/interna_revista_correio,300703/a-mestra-das-sapatilhas.shtml  em 13/05/2012 

Karla Lopes 

 

Bacharel em Secretariado Executivo Bilíngue.

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