Destaque da semana da Palhaça Sininho

Palhaça Sininho esteve no dia 11 de Dezembro de 2018, na Câmara dos Deputados para um encontro com uma Assessora da Casa para conceder uma entrevista, e durante sua permanência na portaria, o Deputado Tiririca foi informado de sua presença. Rapidamente o Deputado foi ao seu encontro e conheceu a história dessa personagem incrível. Não faltaram “cliques e Flash’s” e muita sintonia!

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Fonte: @Tiriricanaweb

Entrevista com a Palhaça Sininho

ESSA É MINHA PROFISSÃO

Por: Silvana Scórsin

             Em tempos onde a bandeira de especulação eleitoral se vincula ao monstruoso desafio do desemprego em um País que por natureza possui um povo criativo, trabalhador e alegre, não são raros exemplos como o de Simone Fernandes Mendes, a Sininho, hoje a Palhaçinha. Jovem de 31 anos, nascida em Brasília, divorciada, mãe de dois filhos, uma de 9 anos, Ângela Cristina e um de 10 meses, Carlos Aristides.Seu grau de instrução não passou do ensino médio, mas com orgulho diz-se profissional – baleeira de ônibus – segundo ela, essa é a minha profissão.

          O que vamos aprender com Simone, é mais do que exemplo de superação, reinvenção, luta, é uma abordagem de como trabalhar com o emocional das pessoas e com o seu próprio ser, transportando esses valores de forma inteligente para seu trabalho, suas relações e para as suas dificuldades. Em qualquer profissão, é preciso ser diferente. Sim, diferente no stricto sensu e no latu senso, o cabelo vermelho, ou a decepção que  se reverte em mola propulsora. Já não é o bastante  técnicas de autocontrole, de bons relacionamentos, multifocados e multidisciplinares, o relevante é aprender com os sentidos. Ler, escrever, falar, escutar e sentir, e ainda acrescentar uma boa dose de observação a que estamos destinados a servir como excelentes profissionais, exercendo a plenitude no trabalho, a recompensa do conhecimento. 

              Devemos usar todo e qualquer tipo de exemplo para nos inspirar no óbvio. Gostar de fazer, é o mesmo que não trabalhar, é ser feliz, é descomplicar o seu dia a dia, a sua vida e a dos outros. É tecnologia no coração. Simples. 

Para finalizar, fica uma dica aos nossos governantes que tanto quebram a cabeça a procura de geração de empregos: Essas pessoas querem trabalhar, tem muita gente honesta, preparada e competente nesse ramo de vendedor em ônibus, e ainda, aceitam pagar para estarem em conformidade e levar benefícios a todos. Depende de que? 

Mas, a História de Simone, foi um pesadelo em meio ao percurso tão rotineiro nos seus 5 anos de vendedora  de balas em ônibus. Na semana de 22/11/2018, quando em uma de suas apresentações, esqueceu sua bolsa com todos os pertences pessoais, do bebe e o seu dinheiro suado e contado para o dia de comida dos filhos.

 

               Simone, desesperada, só ficou sabendo que uma mulher havia levado sua bolsa, e que não quis deixar com o cobrador de ônibus. Tudo podia piorar na vida dela. Postou em prantos no Facebook que a ajudassem a achar a mulher com a sua bolsa. Entre tantos comentários, raivosos, indignados com a tal mulher, mais de mil pessoas a apoiaram e viralizaram os “posts” e mandaram ajuda de todos os tipos. Ela ficou surpresa com a repercussão. Bem, o que ela não sabia, é que a mulher que estava com a bolsa dela, era nada mais nada menos, que um anjo, que passou o dia em crise, por não encontrar nada que tivesse o nome, um número que ela pudesse ligar e entregar aquela bolsa para a palhaçinha com o bebe, da qual ela comprou uma cadernetinha  de tanto que  gostou da apresentação e se emocionou.

               

               A pista veio do cartão do colégio da filha Ângela, mas ao ligar não se sentiu segura para deixar lá, como não teve para deixar nas mãos do cobrador e nem na delegacia. Francisca, trabalhadora e mãe sabia o custo daquilo e tudo o que queria era entregar tudo intacto nas mãos da palhaçinha. Rezou, e foi atendida. Simone foi á mesma delegacia que Francisca ligou e o policial que  atendeu Francisca ao telefone, ouviu  Simone com outro policial e conectou a história. Agora era só uma questão de achar o fone de Francisca no bina da delegacia. Pronto! Em poucos minutos Francisca foi acionada e chorando correu até a delegacia e teve um encontro mágico com Simone. A duas choraram e a história entre elas apenas começou.

               Assim começa também essa nossa matéria. Francisca trabalha para uma das colaboradoras da Capital em Foco que ficou impressionada não só com essa história toda, mas com a história da palhaçinha Sininho. Simone então aceitou e nos concedeu uma entrevista. Confira a mágica história da palhaçinha que transformou a venda de balas e produtos em ônibus em profissão de destaque, com criatividade honestidade, independência, carisma, envolvimento emocional e acima de tudo, de forma simples. Luta por legalização e apoio aos seus colegas.

 De onde surgiu a ideia da Palhaça Sininho?

              Então, na verdade eu sou palhaçinha tem só cinco meses, o bebe fez 10 meses ontem (25/11/2018), foi uma desilusão amorosa que me fez fantasiar dessa forma, de palhaçinha, mas a princípio a ideia era, tipo : eu fiquei triste, chorei, chorei e chorei, e daí depois eu pensei , eu tenho em casa várias fantasias, mas vou fazer uma maquiagem de palhaça vou tirar uma foto e mandar para o “abençoado”  e falar assim:  olhe como você me deixou, estou me sentindo uma palhaça! Só que quando eu vi as fotos, quando eu vi a maquiagem pronta e maquiei o bebe também, eu resolvi não mandar para ele (risos) - vou é trabalhar assim que é  mais interessante -  e assim foi. Uma coisa que foi interessante, que como eu trabalho de palhaçinha, quando eu entro nos ônibus as pessoas pensam que o bebe é um boneco, entendeu? Pelo fato de eu estar paramentada de palhaçinha, pensam que ele faz parte do show e aí no meio da apresentação é que eles percebem que é um bebezinho e aí vem a surpresa – nossa é um bebe de verdade – dizem as pessoas -.

 Você treinou em casa, você montou toda essa apresentação?

             Não.  Depende do que, assim, a gente, bem, eu nunca treino, depende do que eu to vendendo, agora mesmo eu apresentei uma música. Como eu to vestida de palhaçinha, eu entro com a musiquinha bem sugestiva que fala de bons costumes, é da Xuxa,  chama – Preste Atenção – que fala sobre pedir licença, de dizer por favor, obrigada que são valores que estão se perdendo na nossa sociedade, então, as pessoas podem dizer:  ah ! Mas é musica e criança! Sim, é musica de criança que serve para adultos! Tipo, hoje mesmo, segunda feira (26/11/2018) o ônibus que eu entrei para vir, veio muito, muito lotado e nunca tem lugar para eu sentar – entendeu? E geralmente os motoristas me dão carona e eu entro pela porta de trás e aí as pessoas acham que porque não pago a passagem eu não preciso sentar, mesmo com o bebe no colo. Então, geralmente eu não faço venda no primeiro ônibus, mas neste caso fiz questão de cantar essa musiquinha e quando terminei de cantar, me deram lugar.

 Simone, Ficamos sabendo que você tem um aparato musical, rádios e fones, como é isso?

 

 É um radinho que toca a musica e outro que amplifica minha voz.

 Então é uma espécie de Playback?

 (Risos) É.  O difícil é conseguir o ritmo da música, então, um radinho fica do lado direito e outro do lado esquerdo, tem muitas musicas, mas a que eu mais trabalho é essa da Xuxa.

 Você disse que se pintou de palhaça por desilusão amorosa, mas esse 

 trabalho de baleeira  é sobrevivência, escolha  ou ultima opção? 

               Olha só, palhaçinha, como eu disse, a palhaça Sininho, começa que Sininho já é meu apelido desde que eu virei baleeira e a palhaça surgiu sim depois da decepção amorosa ,porém eu sou vendedora nos ônibus coletivos já tem 5 anos, antes eu trabalhava de Simone mesmo, mas sempre com algum diferencial, tipo: com cabelo azul, cabelo vermelho, um enfeite no cabelo. Eu sempre tive um diferencial, porquê: eu sempre quis, ou eu costumava dizer que vendedor tem um monte, mas do cabelo vermelho só tem eu, do cabelo azul tinha eu , então sempre tinha um diferencial, então quando eu comecei como baleeira, o que acontece, há 5 anos -  você me perguntou o motivo não é? - eu tenho uma filha que hoje, ela tem 9 anos e o pai dela estava querendo tirar ela de mim na justiça, ele conseguiu  uma guarda provisória através de muitas mentiras  que ele colocou no processo juntamente com os advogados dele, isso durou 3 anos, nesses três anos eu sofri muito porque ele impedia de eu ver minha filha, só podia pegar ela no horário combinado e deixar no horário combinado e se não a deixasse  ele já passava muitas mensagens , enfim, aí eu consegui um emprego de carteira assinada e a guarda reverteu para mim,  e já tinha 3 anos que ela morava com ele. Quando a guarda reverteu para mim eu precisava arrumar um colégio para ela estudar e eu fiz questão de colocar ela em colégio próxima ao meu trabalho aqui no Plano Piloto para ele não  ter motivo de dizer que eu deixava ela com alguém. Coloquei-a no turno da manhã e á tarde numa instituição como se fosse uma creche da LBV, só que pouco tempo depois que eu a matriculei eu fiquei desempregada, bem no auge da crise, por corte de funcionários. Meu ultimo trabalho foi num café na 114 Sul e aí como eu já disse, nas segundas feiras que eu tinha folga eu levava umas balinhas e vendia dentro dos ônibus, porque quando eu era uma passageira, eu via os vendedores e pensava que se um dia eu ficasse desempregada  eu ia virar vendedora nos ônibus  e sempre que eu ficava desempregada, você pode não acreditar, mas eu acredito muito em Deus,  e Deus fala comigo como eu estou falando com você agora, e eu sempre orava e pedia  -  Senhor, se eu  não consegui emprego  ate tal dia - eu marcava a data no calendário - eu vou virar vendedora de ônibus, só que eu sempre conseguia um fichado, ficava um ano há um ano e meio, até dois anos no emprego e desta última vez que eu fiquei de vez  desempregada, eu já tinha começado a vender balinhas nas folgas, como disse, antes. Em certo dia, meu irmão, mais velho, que se chama Antonio Carlos, inclusive, Carlos do Nome de meu filho é em homenagem a ele. Meu irmão trabalha na Bonamix, uma distribuidora de doces, e em dia ele chegou la em casa, abriu o porta mala do carro e ai tinha uma cestinha  e várias mercadorias, tipo: chicletes, pirulitos, jujuba, amendoim,  e ele falou : toma milha filha, você não quer trabalhar? Então vai! Então, assim, ele poderia ter chegado e pagado minha água, minha luz, meu aluguel que estão todos atrasados, mas não, ele falou: toma o material que você precisa para trabalhar! Aì me tornei vendedora todos os dias, sendo minha rotina assim: deixo minha filha Ângela pela manhã no colégio e  começo a vender , e passo o dia vendendo, pego ela 16:30 e a gente vai embora.

Eu engravidei e trabalhei a gravidez inteira com a cestinha, e agora, depois que ele nasceu , depois dos quatro meses dele foi quando eu surgi de palhaçinha 

 Simone, então você acha que não basta apenas ser boa em vendas, ter um bom produto, é preciso inovar, reinventar, surpreender,   coragem, diferenciar, sua perspectiva parece ser de mexer com a emoção das pessoas e também a sua?

           Sim, me fantasiar de  palhaçinha me ajuda porque, por mais que eu esteja triste , quando eu estou de Sininho eu não posso   demonstrar isso porque eu estou toda fantasiada e colorida, as crianças me vem la do outro lado da rua e gritam para mim então eu tenho que abrir o sorriso dar tchau por mais que eu esteja ali querendo chorar.  Tem uma musica que eu gosto muito, ela é assim: “Meu Deus não deixe meu pai me ver chorar,me diz que é só um sonho e eu vou acordar,  assim como um palhaço alegra toda a gente e de baixo da maquiagem esconde o que ele sente”  - é assim que eu tenho trabalhado  desde que eu to fantasiada de palhaça, por que só eu sei o que eu to sentindo para estar ali todos os dias ali, sorrindo, passando alegria, acontecem coisas que são chatas e complicadas de lidar, mas eu tenho que passar por cima e é isso que vem me sustentando financeiramente e emocionalmente, não vou dizer para você que eu levo uma vida maravilhosa,  eu estou com 5 meses de aluguel atrasado,  porque o Bebe nasceu e eu fiquei parada acumulando todos os compromissos de aluguel, luz, água e tudo, então as pessoas me perguntam: por que você mora tão longe? Lá no Goiás? Porque la eu pago um aluguel , pago entre aspas, porque esta atrasado este tempo todo,  porque eu pago um aluguel barato, moro numa casa razoavelmente grande para mim e meus filhos  e ainda falo para o proprietário Sr. Osvaldo,  eu não to conseguindo pagar a água e luz como vou pagar o aluguel? Esses dias postei no meu Facebook a minha conta de luz, porque apareceram lá para cortar e eu pedi para não cortar por favor,  e eles não cortaram, e assim que consegui a ajuda, paguei a conta (choro emoção) 

 Simone, você acha que em relação a conseguir um emprego, sua dificuldade vem por você ter um bebe pequeno, seu grau de   instrução, ou outra coisa?

                Na verdade tem bastante tempo que eu não procuro emprego, por quê: vivo pelos meus filhos, que agora são dois, mas a condição da Ângela Cristina  que estuda em duas instituições diferentes, quando ela entra 7:30 na escola, eu é quem deixo ela. Qual empresa que vai me deixar chegar depois deste horário no trabalho? Quando dá 12h30min tem a troca de escola, e 16h30min ela sai, ou seja, se eu não pegar o ônibus nesse horário para voltar para casa, nós chegamos após as 20h00min horas. Entende?

 Então você “preferiu” uma independência pessoal em nome de seus filhos, você não tem família, pai das crianças que possam te   ajudar?

          Eu tenho a minha família, e é bem grande. Sou filha única de pai e mãe, mas eu tenho 8 irmãos, 4 por parte de pai e 4 por parte de mãe, mas cada um tem sua vida, estão na sua casa, tem sua vida familiar, suas vidas financeiras limitadas e não tem condições de me ajudar financeiramente. Eu moro sozinha desde os 14 anos, minha  carteira de trabalho foi assinada aos 17 anos, por isso que eu parei de estudar, ou seja, desde que fui morar sozinha, nunca mais voltei para trás.

 Simone, você tem um sonho?

        Tenho! Muitos, se a gente não tivesse sonho, seria difícil, pois ele é o combustível da vida.

 Hoje, nesse processo que você está, vendedora de bala em ônibus, o que a Simone deseja, sonha pela frente?

        Eu queria parar de pagar aluguel para ter tranquilidade com meus filhos, por que é isso que mais me deixa aflita e não ter, quer dizer, é ter aquela apreensão de que Seu Osvaldo pode pedir a casa a qualquer momento, porque ele esta no direito dele, eu estou com cinco meses de aluguel atrasado (choro, emoção). 

 Simone, você, mulher, baleeira, almeja ser  outra profissional?

         Sim, eu quero estudar, quero fazer jornalismo. Gosto muito de escrever.

 Entretanto Simone, você é feliz com o que faz? E as pessoas, você sente feliz com elas, mesmo que elas não comprem seu produto?

     Sim. Eu estou perto dos meus filhos e a qualquer momento se eles precisarem de mim eu estou perto para socorrer e em relação as pessoas também, mas já cheguei em casa arrasada diversas vezes por algumas pessoas não entenderem nosso trabalho.

 

 Como assim?

     É proibido venda de produtos e mendicância dentro de ônibus (lágrima) , só que na situação que a gente vive hoje, é uma profissão sim! Existem muitos pais de família e mães de família, que como eu, sustento a casa com esse trabalho e se a gente for pagar a passagem em todos os ônibus que a gente for vender não ganhamos nada.  Então, muitas vezes no final de semana eu faço também trabalho em festas infantis e eu sempre vou vestida de palhaça e quando eu dou o sinal na parada, os ônibus não param, porque eles acham que eu estou pedindo carona, então muitas vezes eu tenho que pedir para outras pessoas darem sinal por mim para eu poder entrar. Já aconteceu de motorista não sair enquanto eu não tirar a roupa de palhaçinha, mesmo eu pagando a passagem, dizendo que era proibido levar vendedor e eu repliquei dizendo: não, eu estou pagando e sou passageira normal. Atravessei a roleta e perguntei aos passageiros se eles estavam incomodados com a minha abordagem. Se eles dissessem que sim, eu não faria, mas sempre peritem.  Neste dia, eu tive que ligar para a polícia. Isso me arrasa, não poder trabalhar dignamente. Eu sei que estou fazendo a coisa certa, quando recebo mães e sogras pedindo para tirar fotos comigo e dizendo que vai mostrar para quem tem bebezinho em casa e diz que não pode trabalhar, me sinto um exemplo. Sinto-me uma categoria, mas que precisa de regulação. Eu acho que se os baleeiros fossem liberados para trabalhar nos ônibus e legalizado, nós como categoria, poderíamos pagar R$ 1,00 para a empresa de ônibus que dividiria com o GDF e assim estaríamos tranquilos e todos seriam beneficiados. Todos. Queremos trabalhar com dignidade.
 

Simone

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