FOCO ESPECIAL ! "Os desafios mundiais diante da crise da COVID-19"

Atualizado: Jun 13


Imagem: Pixabay.


Por: Cel R1 Guilherme Otávio Godinho de Carvalho em 10.06.2020


Ao findar a segunda década do século XXI, o mundo se depara com uma pandemia

causada por um vírus. A COVID-19, não obstante se apresentar como um imenso desafio

para a saúde pública internacional, perpassa (e muito) as discussões no campo da ciência,

infringindo aos mais variados segmentos das relações humanas desdobramentos até agora

não mensuráveis na sua plenitude. Diante de uma plêiade de incertezas e questionamentos,

parece emergir a ideia do afloramento de um mundo diferente deste que vivemos. Nesse

contexto, é objeto deste trabalho expor algumas reflexões acerca das implicações da crise da

COVID-19 para as relações internacionais contemporâneas, apresentando ao leitor uma

indagação central: seria a atual crise um teste para o sistema internacional?

Prognósticos de longo prazo, quando elaborados no calor dos acontecimentos, não

costumam ser muito precisos. Ainda que a chamada “névoa da guerra” dificulte a

interpretação perfeita dos fatos, destacadamente pelo imenso volume de informações

disponíveis (e pela inevitável manipulação destas), faz-se necessário buscar, de forma

ordenada e seletiva, a construção de futuros possíveis. Identificar e avaliar óbices e

oportunidades – objetos fundamentais para a formulação das estratégias centrais para o

inexorável enfrentamento do que ainda está por vir – é o dever de casa a ser feito. O verbo a

ser conjugado, desde sempre, é “planejar”.


As facilidades advindas da evolução tecnológica, da redução dos custos operacionais

dos segmentos de transportes e – não menos importante – da concertação entre os Estados

simplificaram, lato sensu, o trânsito e a movimentação das pessoas em boa parte do planeta.

A rapidez com a qual o vírus se espalhou (e continua se espalhando) trouxe à tona, da pior

maneira, reflexões acerca da temática. O nacionalismo radical, alimentado pela xenofobia,

recebe oxigênio em meio à crise de saúde provocada por um vírus que, tragicamente, pode

ocasionar a falência respiratória no ser humano. E sem escolher nacionalidade. É previsível o

incremento de ondas migratórias no pós-pandemia. E a origem será a de sempre: Estados

falidos (guerras, ditaduras, violência, etc...).


Fechamento de fronteiras, endurecimento da circulação de nacionais e aplicação de

requisitos adicionais para a emissão de vistos para estrangeiros são algumas das medidas

adotadas por um relevante conjunto de países. Em que pesem os efeitos positivos imediatos

para o controle da disseminação do vírus, a eventual adoção de procedimentos mais

restritivos à circulação das pessoas, após a crise de saúde pública, tende a enfraquecer

aquele que é um dos pilares do mundo globalizado. A narrativa nacionalista – e suas

variáveis populistas – poderá se fortalecer. Por quanto tempo, não se sabe. Ainda que o

predomínio pela busca de soluções nacionais prevaleça, é profundamente incerto que essa

“volta para dentro” seja uma realidade duradoura. Imagina-se precoce decretar a morte de um mundo interconectado, até mesmo porque a própria pandemia é prova de nossa

interdependência. O mundo continuará “pequeno”?


Em qualquer cenário, o inevitável choque econômico global é um dos mais visíveis

objetos de tensão, exigindo dos governos as mais variadas medidas para contornar os

estragos provocados (os imediatos e os que estão por vir). A amplitude alcançada pela

integração econômica mundial foi colocada à prova pela crise do novo coronavírus, que

expôs, em alto grau, as facetas negativas da interdependência econômica. Cadeias de

suprimentos globais complexas – e toda a logística a elas atrelada – escancararam

vulnerabilidades da economia internacional, expondo a hiper dependência do mundo em

relação à China. É razoável inferir a ocorrência de uma remodelagem na arquitetura produtiva

mundial, com reflexos diretos para o comércio global.


No que pese a obviedade, a linha de ação mais provável para mitigar os efeitos do

quadro descrito deverá passar pelo incremento da internalização de cadeias de suprimento,

em especial daquelas mais afetas a setores estratégicos. Entretanto, tal expediente não

estará acessível a todos os condôminos. A já conhecida realidade acerca da heterogeneidade das capacidades de reação dos países, caracterizada pelas assimetrias econômicas, tecnológicas e sociais se imporá. Dessa feita, observaremos o aprofundamento das vulnerabilidades dos países em desenvolvimento frente aos mais desenvolvidos. Reservas de mercado deverão impulsionar a disputa por espaço na arena do comércio internacional, que ficará ainda mais restrita ao “clube dos grandes”. O mundo será mais desigual?


Frente à dimensão e à transversalidade dos desafios que ora se apresentam em razão

da crise da COVID-19, é possível identificar a relevância do papel do Estado na mitigação dos

efeitos imediatos a ela atrelados, assim como a inevitabilidade do seu protagonismo na

indução do processo de recuperação pós-pandemia. A responsabilidade das lideranças

políticas frente às inúmeras adversidades que ainda se apresentarão é demasiada. Às

inevitáveis cobranças por ações efetivas por parte de seus cidadãos e grupos de pressão

diversos (campo interno) somam-se variáveis externas que demandam articulação política

internacional por parte dos governos (campo externo).


Ainda que tenhamos observado a prevalência de esforços individuais por parte dos

Estados, caracterizando a preponderância da busca por soluções nacionais em detrimento

dos ajustes multilaterais, é incerta a efetividade da manutenção de tal postura. Henry

Kissinger (Wall Street Journal, Abr 2020) alerta que nenhum país, nem mesmo os Estados

Unidos da América (EUA) poderá, por meio de esforço puramente nacional, superar o vírus.

“O atendimento às atuais necessidades deve, em última análise, ser associado a uma visão e

a programas colaborativos globais”. Do conjunto significativo de incertezas, uma verdade

parece emergir: uma gama países, em especial os menos desenvolvidos, não conseguirá se

reerguer sem ajuda e cooperação internacional. Nesse contexto, qual será o papel das

organizações internacionais multilaterais? O momento seria oportuno para o (re)fortalecimento ou aprofundamento do descrédito?

Em momentos de crise, a emergência por ações políticas pertinentes, relevantes,

oportunas e eficazes demanda centralidade de comando e efetiva capacidade de

coordenação por parte dos governantes. Em síntese, os Estados terão que botar à prova a

eficiência de suas instituições. No campo interno – no que tange às democracias liberais – a

eficácia das medidas tomadas será, grosso modo, avaliada por seus cidadãos (eleitores e

pagadores de impostos) que, em períodos de crise e instabilidade econômica, tornam-se mais sensíveis (e dependentes) às repercussões das ações estatais. No campo externo, a

interação entre os Estados será balizada não só pela tradicional diplomacia, que trabalhará

pela cooperação e a concertação, mas também pela capacidade de fazer prevalecer seus

interesses, fazendo uso, eventualmente, dos seus recursos de poder. Por conseguinte,

vivemos (mais uma vez) um momento de confirmação da figura do Estado como ator central

das relações internacionais. O mundo se tornará mais conflitivo?

No que pese a incerteza quanto à precisão dos números divulgados pelo governo

chinês, as estatísticas ora disponíveis apontam para uma incipiente recuperação, inferindo o

início do retorno à normalidade. Wuhan, capital da província da China Central e primeiro

epicentro da COVID-19 saiu, em 7 de abril, do regime de quarentena. Na esteira dos

acontecimentos, o governo daquele país vem sofrendo críticas por parte de segmentos da

comunidade internacional. Negação inicial quanto à ocorrência da transmissão viral e letargia

no trato dos seus desdobramentos são as mais recorrentes. No intuito de neutralizar os

efeitos das mencionadas acusações, o Presidente Xi Jinping ordenou o desencadeamento de

uma ofensiva mundial de soft power. Medidas de ajuda à Europa, Oriente Médio e América do Sul abrangem desde apoio técnico especializado em saúde, até doação de testes de

detecção e equipamentos médicos. A estratégia para resgatar a imagem do gigante asiático e conquistar a confiança internacional recebeu a simbólica alcunha de “Diplomacia da

Máscara”.

Ainda que permaneça alguma controvérsia, a origem muito provável do novo

Coronavírus foi a China. Em torno dessa discussão, estabeleceu-se uma batalha pelo

domínio da narrativa, notadamente entre os (EUA) e a nação asiática. A troca de acusações

entre os dois países acirrou a tensa rivalidade entre as duas maiores potências do planeta,

agravando o ambiente de incertezas que envolve as relações internacionais na atualidade.

Ainda que seja prematuro afirmar, a crise da COVID-19 reúne potencial para alterar, com

restrições, a distribuição básica do poder internacional, com possível atrofia da influência dos

organismos multilaterais e eventual degradação da liderança dos EUA. Outrossim, tem

aptidão para acelerar, ainda que de forma relativa, o processo de transição hegemônica

Ocidente-Oriente. A balança de poder mundial está se alterando?

Da resumida apresentação de algumas incertezas medulares quanto aos inevitáveis

impactos da crise da COVID-19 sobre o sistema internacional, conclui-se acerca da

importância do planejamento (lato sensu) e da definição, por parte dos Estados, das

estratégias decorrentes. No faseamento desse processo, os desafios concentram-se,

inicialmente, na prevenção dos danos mais visíveis e diretos aos seus cidadãos e às

estruturas do Estado (saúde, infraestrutura, logística, economia, etc.), bem como na mitigação

dos seus efeitos nefastos mais imediatos. Ademais, e não menos importante, caberá aos

Estados, desde já, assumir a responsabilidade por traçar a direção a ser seguida no futuro

próximo, pós-pandemia.

Voltando à pergunta inicial, parece claro que a atual crise da COVID-19 é um teste para

o sistema internacional. John Allen (Foreign Policy, Mar 2020) destaca que a História será

escrita pelos “vencedores” da crise. “Os países que perseverarem – tanto em razão da virtude de seus sistemas políticos e econômicos, quanto na perspectiva da saúde pública – terão sucesso sobre aqueles que experimentarem resultado diferente e mais devastador”. A

tenacidade e a obstinação, quando acompanhadas de boas estratégias, tendem a produzir

bons resultados. Que sejamos capazes de aprender a lição.

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