Foco Especial! Uma conversa com o COVID -19!

Atualizado: Mai 7

Por Silvana Scórsin


Capital em Foco tem a honra de publicar a íntegra do artigo de Leone Carneiro, especialista em gestão de pessoas e que estará na próxima Live com esta jornalista no dia 07 de maio as 18:00 para falar sobre Felicidade Interna Bruta. De grande originalidade, O artigo aborda o vírus COVID-19 onde é chamado a uma conversa franca pela autora sobre sua chegada nada convencional ao nosso mundo. Confiram!


Foto: autora



Caro vírus invisível a olho nu, conhecido mundialmente como COVID-19. 


Você sabe a origem do seu nome? Descobri: corona + vírus + doença + 19. Sofisticado!!!!

Ouvi seu nome a primeira vez em dezembro de 2019. Lá estava eu no Velho Mundo. Não sei se você tinha aparecido por lá. À época, sabiam muito pouco de você: agora está mais conhecido (muito). Sabe que nasceu na China? Suspeitam que seu (s) pai (s) seja uma ave. Não me pergunte qual. Me disseram que você estava em uma feira de animais e de lá saiu para ganhar o mundo. E ganhou mesmo: Ásia, Europa (não te encontrei por lá. Que bom), Oceania. África e América. Você conhece mais lugares que muita gente. Chegou chegando, como um furacão. Primeiro na sua terra natal, depois na Itália. Olha a ironia: visitei a região italiana que você mais arrasou, norte do país, região da Lombardia. Que cidades lindas!! Hoje estão vazias.

Suspeito que você já tenha cinco meses. Tão jovem e tão famoso. Parece um Sansão com aquela força enorme. Não se preocupe, não. Acharemos uma Dalila para você. Abro parênteses (você não é de todo mal. Fica ansioso, não. Te conto em breve). Sua maior força não é a física de Sansão, é a velocidade de se locomover e atacar a nossa espécie. Prazer, somos a espécie Homo Sapiens. Conseguimos sobreviver às outras espécies (Homo Erectus, Neandertal) e sobreviveremos a você. Fé. Nós conquistamos e inventamos muito. Observação importante: igual a você, destruímos também.

Criamos o antibiótico que salva vidas até hoje (ele não nos salva de você. Voce não é bactéria); criamos o trem, o carro e o avião que permitiram que nos deslocássemos mais rápido (algo em comum com você: rapidez). Sem falar da importantíssima Ciência, que vem sendo essencial a seu combate. Mais, temos tecnologias de ponta que nos ajudam consideravelmente. Elas estão à mil, unidas para achar uma solução a seu respeito. Precisamos de uma vacina. Logo.

Depois de 5 meses te conhecemos melhor. MAS, o porquê e o que veio fazer aqui no Planeta Terra ainda não sabemos. Quando desaparecerá? Como te abater? (Pergunta que poderia fazer parte do filme Quem Quer Ser um Milionário, por sinal, muito bom e criado perto de sua terra natal). Veio a nos ensinar algo? Como viveremos depois que você se for. E divago, com base em tudo que vivo e leio a seu respeito.

Voce sabe o motivo pelo qual quero conversar com você? Tá chato escutar seu nome todos os dias, te ver em todas as mídias e redes sociais. Viro o corredor do meu ap e lá está você. Muy amigo. Como algo é invisível e visível ao mesmo tempo? Será que a física explica? E a quantidade de memes e brincadeiras sobre você? Gargalho. Ou como se diz em francês, Je rigole. Tentando ser leve neste caos criado por você. Leia o livro A Arte de Ser leve.

Está na hora de te dizer o que vem causando. De repente, fomos orientados a ficar em casa – para não dizer obrigados – por razões de segurança. Você está no ar, no chão, na maçaneta da porta, na mão do outro. Passamos a trabalhar em casa, a fazer exercícios em casa, a usar máscaras (alguns dizem que elas virarão acessório). Ganhei uma rosa choque com flores bordadas. Linda de se ver.

Calma, tem mais: criou problemas na economia – empresas de diversos segmentos fecharam (se ainda não faliram), restaurantes somente para delivery, pessoas perderam ou perderão seus empregos. Na política, nosso presidente parece mais atrapalhar que ajudar. Quem lerá este texto saberá do que falo. Países discutem entre si, fecharam fronteiras. Teorias da conspiração surgiram - a China o criou em laboratório para acabar, principalmente, com um grande rival econômico seu, os Estados Unidos da América. Como assim? OS EUA são os seus maiores credores - O feitiço viraria contra o feiticeiro. A maneira como nos relacionamos e nos comunicamos rodou 180° no compasso. Tenho medo de encostar no outro. Quando saio e vejo um ser humano em minha direção mudo a rota. Já ouviu falar de Whatsapp? Zoom? Instagram? Todos sendo muito utilizados para vermos a família, fazermos reuniões e até consultas.

E, para mim, o mais importante. CAOS na rede de saúde. Não te disse ainda o que você nos causa: sente febre, falta de ar, perda do olfato e paladar. Os casos mais graves precisam de um respirador automático. Os hospitais não tem ou não o tinham o suficiente. E as Unidades de Terapia Intensiva (UTIS)? Lotadas. Gente saindo pela porta. Sabe um lugar que não falta trabalho? Os cemitérios. Tanto você como o infectado que não te resiste acabam lá. Por sua causa, descobri um blog super legal: A Morte como Tabu. Profissionais da saúde são chamados de heróis. Creio que o são. São eles que lá estão te encarando quando você nos ataca e tentam preservar vidas.

Você escancarou a enorme desigualdade social aqui no meu país. Já sabíamos disto. Já víamos isto. Lembra quando escrevi acima sobre você ver um ser humano e mudar a rota? Fazíamos isto. Quando vemos um pedinte ou um “suspeito”, mudamos a rota. Confesso, com dor no coração, que já o fiz. A desigualdade já estava ali. Não queríamos vê-la. Ela dói. Espero que todos se atentem, forçadamente, à situação. Ela grita. E o meio ambiente? Com grande parte da população em casa, o número de automóveis nas ruas diminuiu. A poluição do ar em países asiáticos decresceu a ponto de ser possível enxergar o Monte Everest, algo que não acontecia há tempos. Não o conheço. Creio que deve ser uma linda paisagem.

Veja bem, apesar de todo este estrago, eu disse que você não é de todo mal. Tenho certeza absoluta que você veio nos dizer algo, mesmo que por meio de uma maneira dolorosa. O modo como vivemos, uma opinião para lá de pessoal, não será o mesmo. Temos, mais uma chance, de sermos melhores. Isto vale para cada indivíduo e sociedade, bem como para nossas instituições públicas e privadas. Acordemos.

Mesmo em meio a dor, tenho visto coisas legais e bonitas: a solidariedade está no ar. Suspeito que o amor também. Pessoas físicas e jurídicas se movem para ajudar. Corona, é o ser humano ajudando o outro.

Tento pensar que somos bons, até que me provem o contrário. Tem um historiador aqui no planeta que diz: não subestimemos a estupidez humana. Sou mega fã dele, mas acho um exagero ao quadrado. Porém, sou realista e sei que a injustiça, a pobreza e a indiferença não acabarão. Por que não diminuí-las?

Nestes dias em casa, tenho refletido, lido, trocado ideias. O que me é essencial? O que eu, realmente preciso? Ando bipolar: hora bem, hora péssima. Anseio que algo mude, de verdade, na sociedade. Olha que bonito. Um amigo me contou que seu vizinho, pela primeira vez em quatro anos, perguntou se ele estava bem e precisava de algo. Me emociono fácil.

Termino esta carta, caro vírus, com uma frase de uma grande escritora nossa, Cora Coralina “ Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas... daqui para frente levo apenas o que couber no bolso e no coração. ”

Assim o seja!




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